MEGAFONES UNI-VOS

O Inverno Cultural utiliza da poesia visual para apresentar a temática “Universidade, Arte e Resistência: A Cultura como Bem Comum”. Conhecida como o lugar da ciência, a universidade abre espaço para a poesia. João Cabral de Melo Neto dizia que Vinícius de Moraes devia “emagrecer poeticamente”. No caso da academia, ela precisa de uma dieta de cientificidade, para dar espaço à alma, às paixões, aos sonhos. Emagrecendo em sua objetividade e ganhando massa artística.

O festival já começa artisticamente desde a concepção. Ele quer, acima de tudo, uma alma lírica. Lirismo não no sentido estrito, mas daquilo que nos seduz.  Como diz a  primeira frase do Manifesto da Poesia Pau Brasil, de 1924, “a poesia existe nos fatos”. É algo que vai além do mundo dos doutores e das elites arrogantes.

Por isso, apresento o poema visual denominado “Murofone“, que se refere aos movimentos de resistência cultural.  O muro é uma espécie de megafone, e o megafone uma forma de muro. No sentido de dar voz, de amplificar, de estar presente no dia a dia. Aquela voz que não se cala. O riso é seu grito.

No muro aparece grafitado um megafone, contendo a expressão OCUPE ARTE, como um chamado pela participação da cidade para uma arte democrática e inclusiva. O grafite é uma alegoria da cultura pulsante que ocupa as cidades, apesar de todas as formas de repressão. Semelhantemente, o megafone é um instrumento de comunicação utilizado principalmente nas ruas. É a expressão simples e direta. A arte de cada um.

O grafiteiro não quer autorização, ele não aceita regras que vão contra seus princípios de liberdade. Ele realiza uma “desobediência civil”, como Henry Thoreau, que não aceitava pagar impostos a um Estado que apoiava a escravidão e promovia a guerra.

Queremos ser como os povos indígenas, que nunca foram catequizados, como pregava Oswald Andrade. Ele pedia uma nação Caraíba, onde já havia se inventado o comunismo. Nós em Minas queremos a nação Maxakali. Queremos o carnaval, a poesia e o riso. Com Abaporu vamos à luta armados de poemas, sob a benção de Nossa Senhora do Beijo. Megafones uni-vos. Joguemos corações-bomba. Queremos a cidade de braços aberto, generosa.

Assim como o grafiteiro, que é extremamente generoso, doando sua arte, sem pretensão de retorno financeiro. Como o misterioso artista urbano anônimo que assina como Banksy e que há anos vem grafitando muros pelo mundo.

O tema OCUPE ARTE também remete ao movimento de ocupação das escolas e universidades que teve grande importância em 2016. Ocupou e amou. Em defesa da educação, em defesa da emoção e muitos outros “ãos”. Foi um momento de poesia.

Além disso, acima do muro, o poema mostra uma mulher negra, com olhos grandes, pronta para ocupar o espaço que merece. Essa mulher é uma alegoria a todas as minorias, e propõe a arte como instrumento de inclusão social e quebra de preconceitos. Ela também faz referência a um cartaz produzido pelo fotógrafo e artista gráfico da União Soviética socialista, Aleksandr Ródtchenko, que mostra uma trabalhadora anunciando algo. No caso do Inverno Cultural, trouxemos uma menina de dreads, representando nossa afro-brasilidade.

Esse poema visual representa a defesa da democratização da arte, o respeito a cultura popular e das periferias e o reconhecimento da cidade como um espaço vivo e vibrante de cultura. Derivadas do poema visual “Murofone”, foram feitas também outras artes, que serão utilizadas na divulgação do Inverno Cultural.

Jairo Fará